segunda-feira, 14 de maio de 2012

...: Aviso aos navegantes - I:...


O título acima dá nome a uma música. Há pessoas que gostam. Outras detestam. Não há unanimidade sobre o tema, nem sobre os motivos que levam uma pessoa a estar ou a se sentir assim: só, sozinha. 

Tão importante quanto saber os motivos é saber como agir ou reagir quando nos percebemos sozinhos. Em Lamentações, capítulo 3, versos 26 a 28, o autor diz que “bom é ter esperança e aguardar em silêncio a salvação do Senhor. Bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade. Assente-se solitário, e fique em silêncio, porque Deus o pôs sob ele”. 

Considerado uma continuação do livro de Jeremias, o texto narra a tomada e a destruição de Jerusalém, a dor e a aflição do povo e, a meu ver, a contínua oração pedindo por misericórdia. Seu autor relata a morte entre famílias, a perda do lar, de bens, da vida social e religiosa do povo. 

Quantos ali, mesmo com alguns amigos ou familiares remanescentes, não se sentiram sozinhos – ou desamparados, desacompanhados, palavras que o dicionário aponta como sinônimos de quem vive, ou está, só? Como nós reagimos – ou reagiríamos – se estivéssemos passando por situação parecida à que os israelitas passaram? 

O profeta diz: “bom é ter esperança, e aguardar em silêncio a salvação do Senhor” [verso 26]. A esperança bíblica é a confiança no cumprimento de um desejo ou expectativa*. Não é admissível qualquer hipótese de descumprimento ou dúvida sobre a autoridade e capacidade de realização por parte de Quem prometeu. 

Mesmo assim, porém, aguardar, esperar é uma atitude com a qual cada vez mais nos percebemos inaptos, incapazes. Quando estamos sofrendo, a última coisa que temos é paciência. Então, reclamamos. Murmuramos. Maldizemos. 

E entristecemos ao Senhor – porque fomos criados para louvor da Sua glória, para dar graças em todas as coisas. O Senhor Deus não está pedindo um sorriso no rosto, uma alegria forçada quando estamos sofrendo e nos sentindo sozinhos. Mas que bela diferença faz quando não abrimos nossa boca para murmurar, reclamar... Se não for possível louvar ao Senhor Deus, então, que usemos nossa força para ficar em silêncio. 

Há um provérbio chinês que diz que uma palavra lançada, pronunciada, não volta atrás, e é verdade. Você pode estar se sentindo só, mas, dificilmente, estará de fato só, sem ter ninguém ao seu lado. E, do mesmo jeito que a alegria é contagiante, a murmuração e tristeza também são, então...  

No verso 27, vemos que “bom é para o homem suportar o jogo na sua mocidade”. A NTLH diz que “é bom que as pessoas aprendam a sofrer com paciência desde a sua juventude”, e a Bíblia Viva diz que “é bom para o jovem agüentar a disciplina”. Se o sofrimento leva à solidão, então que possamos encará-lo como uma disciplina espiritual, que nos trará grande aprendizado, ainda que, no momento, isto pareça impossível, ou não faça sentido. 

“Assente-se solitário, e fique em silêncio, porque Deus o pôs sob ele”, continua o profeta. Creio que o Senhor Deus é soberano – faz o que Lhe apraz e com propósitos bons para nossa vida. Quando Ele permite que o jugo do sofrimento esteja sobre nós, é porque há uma boa razão para isto – como nos aproximar mais d´Ele, nos fazer menos dependentes dos outros, menos confiantes em nós mesmos, por exemplo. 

Há motivos que, creio, só conheceremos na glória do céu, em Sua santa presença. Então, até lá, se for preciso, assentemo-nos sozinhos – desacompanhados – e fiquemos em silêncio – sem murmurar, reclamar, maldizer. Jamais sem orar, ou seja, sem falar e abrir nosso coração para o Pai. 

O Senhor Jesus Cristo, no Getsêmani, levou três discípulos, mas Seu clamor foi apresentado diretamente ao Pai, quando “apartou-se deles cerca de um tiro de pedra”, conforme relata Lucas [22:41 a]. “Em agonia, orava mais intensamente”, prossegue o relato. [veja o verso 44]. 

Segundo o dicionário, agonia é o estado fisiológico que precede a morte, ou o tempo que dura tal estado. É uma aflição extrema ou sofrimento intenso. Aos olhos humanos, o Senhor Jesus Cristo estava só, mas não é isto o que se aprende do texto bíblico. 

Quem fala o faz a alguém. 

No momento de tamanha agonia, de um sofrimento intenso, o Senhor Jesus Cristo vai orar, clamar a Deus Pai, Quem o poderia livrar daquele cálice – que a nossa língua portuguesa permite a licença de interpretação do ‘cale-se’, ficar em silêncio, o que de fato ocorreu, como vemos ao prosseguir com a narrativa bíblica. 

Sabemos que o Senhor Jesus Cristo bebeu o cálice – para nosso bem. Ele sofreu para que todos desfrutemos a bênção da salvação e da vida eterna, “[...] porque também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as Suas pisadas” [1 Pedro 2: 21b] 

 ...:Continua:...

*Dicionário da Bíblia de Almeida. Barueri/SP: SBB, 1999, pg 65.

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